domingo, 29 de outubro de 2017

Silêncio! Deixem o amor falar

A humanidade evoluiu, criou casas, carros, geladeiras, aviões, fertilização in vitro e Iphones 7. Nossos líderes, gritam a plenos pulmões e a plenos pulmões as ordens para "atacar os inimigos" eram e são até hoje dadas. Mas, se todos somos irmãos e iguais, por que gritar morte aos inimigos?
Para cada pessoa que grita, muitas são silenciadas.

quinta-feira, 20 de julho de 2017

Sobre uma estrela

Boa demais para esse mundo
Talvez se achasse ruim
Canto marcante, canto forte
Em êxtase milhares

Como entender?
Incompreendida?
Sem compreender?
Uma estrela pendurada

Por que, estrela?
Nunca vou entender
Teu lugar era aqui
Teu lugar era no chão
Brilhando! Estrela!
Teu lugar era na terra

Uma estrela pendurada
Pendurada por uma corda
Uma corda no pescoço
A estrela está morta

Silêncio!
Apenas o silêncio
Silêncio e breu
Não há canto, não há luz
A noite está escura
Calou-se a voz da estrela

Foi para algum lugar distante
Só resta lembrança
A estrela está morta
Mas viverá para sempre

Em memória de Chester Bennington

sábado, 1 de julho de 2017

EU NÃO ME ESQUECI DE QUEM A GENTE FOI - Emanuel Hallef


"Eu queria aprender a desapegar assim das pessoas, como você desapegou de mim. Não é fácil pra eu falar sobre isso, pois ainda tenho amarras bem pesadas no peito. Mas nas primeiras semanas, eu devo admitir que fiquei sem saber o que fazer. Eu saía cansada da universidade, a cabeça cheia, e no ônibus eu ia planejando durante o caminho inteiro, por já saber o que acontece toda noite: "quando eu chegar em casa, vou logo dormir, pra evitar pensar", mas isso nunca acontecia, é claro, e eu sabia que não aconteceria nem tão cedo.
Algumas paixões são difíceis de matar.
E eu me perdia na noite, encurralada pela madrugada,
e em pensamento eu te trazia de volta
para ficar mais um pouco comigo.
Eu imaginava mil e uma coisa.
Como se você fosse voltar, era engraçado e banal.
E estranho, porque inconscientemente, eu te esperava mesmo. Eu segurava o telefone na mão, apertando-o, paranoica. Mudava o lado da cama, ligava a televisão, ficava de pé. Eu esperava que a porta batesse. Eu esperava que você aparecesse de surpresa na janela do quarto, tipo o que os amores dos filmes românticos fazem por outros amores.
Eu só esperava te ver... E bem, eu te via, sim, de certo modo, mas só em pensamento. Lá, você voltava e dizia que nunca tinha sido a sua intenção me magoar, que as coisas não precisavam ser assim e que você queria voltar para sermos o que éramos, ou uma coisa maior que aquilo.
Eu sorria, boba e apaixonada, e repousava
minha mão em você,
em silêncio, porque eu sempre
gostei de estar em silêncio
enquanto ouvia seu peito subir e descer, e lá,
quieta, eu pensava "meu namorado está de volta.
E ele parece estar mais interessante do que nunca".
no sonho, a gente conversava sem parar, porque parecia não haver tempo para nós. Você veio para ficar, e ficaria, porque não havia outro lugar em que você quisesse estar.
E aí, lembrávamos das pessoas que nos desmotivavam,
lá atrás, dizendo que nossa relação
nunca iria para frente
pelo fato de sermos incompatíveis.
E eu dizia a você, naquela noite, ainda em sonho, que eu me compatibilizaria a você, todos os dias, se preciso fosse, porque eu te amava, e amar pede esse tipo de sacrifício.
Sem falar que eu não me via exibindo
amor por mais ninguém.
Você também dizia que se compatibilizaria em mim,
em toda a sua abundância
(sim, você me disse que viria inteiro, agora).
[eu morria de amor, e continuava vivendo...]
Mas ainda nas madrugadas, eu acordava. E chorava, muito, puxava o lençol, atirava ele longe, e eu adormecia pela dor de cabeça, e acordava no outro dia, sabendo que esse ciclo vicioso se repetiria. Acordar-ônibus-pensar-chorar-"e se..."-faculdade-noite-madrugada-eledevolta-acordar.
Eu agia assim, não era porque eu era fraca e não conseguia te arrancar de mim, é só que existem certos tipos de amor, que não acabam, mesmo quando chegam ao fim.
[e o meu continua aqui, doendo...]"

sexta-feira, 30 de junho de 2017

E agora? Falta!

Por Nina de Jesus

Ainda não desapaixonou. Mas, "tâmo aí tentando', não é mesmo!?
Só que ainda escuta "I hate u, I love u" e ainda sente falta de conversar com ele.
É uma puta merda ter muita coisa em comum com a pessoa,  por que tudo que você gosta, lembra ela. Tudo que você faz, lembra ela.
É uma merda, hein? Você lembra as conversas que tiveram, o quanto elas te fizeram rir, as piadas sem graça, que foram engraçadas, as coisas que a pessoa compartilhou com você, as vontades dela, as bandas, as músicas, os gostos em fim...
Aí você faz: "puta que pariu! A gente tinha tudo pra dar certo!" Mas, faltava simplesmente uma única coisinha boba, mas, fundamental: ter o sentimento em comum e recíproco.
E você continua: "eu sou a pessoa certa, eu podia ser a pessoa certa, por que ele não viu?"
Mas, você sabe que não era a pessoa certa, por que não existe essa de pessoa certa, existe pessoas predestinadas a ficarem juntas, e com você, não foi bem assim.
E aí, você até tenta conversar com outra pessoa mas, não é a mesma coisa, nunca é nem vai ser, aquela pessoa era única, aquela conversa era única. 
Você busca os traços dela no outro, busca ter uma conversa parecida, mas, o papo não flui, por que não é a pessoa. Nunca vai ser a mesma coisa! Pessoa são todas diferentes, ninguém é igual a ninguém.
E você fica entediada, estressada, dá vácuo e patada...
Saudade, como você queria matá-la de fome, mas, a falta e a ausência te alimentam, a dor te alimenta, a busca pelos porquês, pelas razões de não ter dado certo, tudo isso te alimenta.
Você lembra que a pessoa pegou todas as outras pessoas que quiseram pegar ela! E rejeitou você. E aí o foda-se fica ativado de novo, você sente uma raiva enorme dela, você a odeia, por quase um segundo... Mas, você lembra que não há mais ninguém para falar sobre deuses gregos e bandas desconhecidas com você, ninguém que assista Preacher e American Gods, que converse com você sobre tudo, inclusive café expresso, pizza, livros e comida ruim. Ninguém que debata sobre questões raciais e sociais e numa mesma conversa fale sobre Tarot e "discordianismo". Ninguém mais gosta de fígado e troca Facebook por twitter. Ninguém que diga que açaí tem gosto de terra, odeie Supernatural ou te pergunte mil vezes se você está bem, só para te irritar.
E aí dói tanto, você começa a pensar: "como fui idiota, eu poderia ter agido de outra forma", mas, se esquece de que nessa história, você não foi a única que fez merda, você não é a única culpada, e talvez você nem tenha culpa...
Ele nunca gostou de você, mas, agora o simples detalhe é que ele te odeia pra sempre. Ele te acha maluca, descontrolada, obcecada, psicopata, psicótica, infantil... E bem, quem não tem de tudo isso um pouco? Segue o baile garota! Você tentou se controlar, você jura! Jura que tentou se conter, levar numa boa, ficar nem aí. Mas, não deu, você fracassou. Por que quando se trata dele, você se perde, você muda, você deixa de ser você. Você enlouquece! Sua cabeça vira! 
E isso é tudo que não podia acontecer! Por que você só consegue afastá-lo ainda mais, toda vez.
Você fracassou de novo. De novo e para sempre. É o fim. Foi o fim, mas, você ainda acha, seus amigos acham que se ele voltasse pra você, certeza que você ia querer ele de volta, e sempre, e tanto... Caramba! Você é trouxa demais! Acorda, Alice! Saí do seu mundo de conto de fadas e para de acreditar em finais felizes!
Lamento informar, mas, a hora de virar a página e seguir em frente já passou! Para de tentar escrever esse livro, já tá tudo borrado! Não vê? Joga ele fora! Começa outro! Novos caminhos e novas histórias esperam por você!
O sol sempre aparece depois de uma tempestade. E espero que essa tempestade passe logo, caso contrário, vou ter que fazer você sair, com ou sem sol.

terça-feira, 13 de junho de 2017

Sobre cartas

Estava a conversar com amigos sobre cartas e mensagens de suicídio.
É um clichê alguém deixar cartas de despedida, mas, por outro lado, é bom poder se despedir. Tanta gente morre sem ao menos ter tido a chance de dizer adeus. Sem ter tido a chance de falar como se sentia, tudo o que sentia, sem ter tirado as máscaras.
Não, não pretendo cometer suicídio, mas, a ideia de simplesmente morrer sem dizer tudo que há dentro de mim, ou ao menos sem tentar dizer, me é assustadora. Aterroriza-me, arrepia-me até o último pelo do corpo. Portanto, vez ou outra escreverei cartas.
Não, não serão cartas de despedidas, serão cartas de sentimentos, cartas da verdade. De mim, para as pessoas que fizeram/fazem parte da minha vida. De mim para você, talvez.

Sobre o amor, de novo!

O amor é lindo!
Sim, não é por que não tenho ninguém que direi o contrário. Eu sempre fui defensora convicta do amor, mas, eu não conheço o amor (entenda por amor o quiser entender). Eu conheço a dor, a solidão, o medo e até as borboletas no estômago, mas, não conheço o amor, não conheço mas, ainda assim dele sou fã.
O amor, ah, o amor! É complexo, irônico, traiçoeiro, sorrateiro e lindo. Por que se dói, se machuca, se faz sofrer, se você pode viver sem, não é amor nenhum.













sexta-feira, 19 de maio de 2017

EU, ETIQUETA (Carlos Drummond de Andrade)

Em minha calça está grudado um nome 
que não é meu de batismo ou de cartório, 
um nome... estranho. 
Meu blusão traz lembrete de bebida 
que jamais pus na boca, nesta vida.
Em minha camiseta, a marca de cigarro 
que não fumo, até hoje não fumei. 
Minhas meias falam de produto 
que nunca experimentei 
mas são comunicados a meus pés. 
Meu tênis é proclama colorido 
de alguma coisa não provada 
por este provador de longa idade. 
Meu lenço, meu relógio, meu chaveiro, 
minha gravata e cinto e escova e pente, 
meu copo, minha xícara, 
minha toalha de banho e sabonete, 
meu isso, meu aquilo, 
desde a cabeça ao bico dos sapatos, 
são mensagens, 
letras falantes, 
gritos visuais, 
ordens de uso, abuso, reincidência, 
costume, hábito, premência, 
indispensabilidade, 
e fazem de mim homem-anúncio itinerante, 
escravo da matéria anunciada. 
Estou, estou na moda. 
É duro andar na moda, ainda que a moda 
seja negar minha identidade, 
trocá-la por mil, açambarcando 
todas as marcas registradas, 
todos os logotipos do mercado. 
Com que inocência demito-me de ser 
eu que antes era e me sabia 
tão diverso de outros, tão mim mesmo, 
ser pensante, sentinte e solidário 
com outros seres diversos e conscientes 
de sua humana, invencível condição. 
Agora sou anúncio,
ora vulgar ora bizarro, 
em língua nacional ou em qualquer língua 
(qualquer, principalmente). 
E nisto me comparo, tiro glória 
de minha anulação. 
Não sou - vê lá - anúncio contratado. 
Eu é que mimosamente pago 
para anunciar, para vender 
em bares festas praias pérgulas piscinas, 
e bem à vista exibo esta etiqueta 
global no corpo que desiste 
de ser veste e sandália de uma essência 
tão viva, independente, 
que moda ou suborno algum a compromete. 
Onde terei jogado fora 
meu gosto e capacidade de escolher, 
minhas idiossincrasias tão pessoais, 
tão minhas que no rosto se espelhavam 
e cada gesto, cada olhar 
cada vinco da roupa 
sou gravado de forma universal, 
saio da estamparia, não de casa, 
da vitrine me tiram, recolocam, 
objeto pulsante mas objeto 
que se oferece como signo de outros 
objetos estáticos, tarifados. 
Por me ostentar assim, tão orgulhoso 
de ser não eu, mas artigo industrial, 
peço que meu nome retifiquem. 
Já não me convém o título de homem. 
Meu nome novo é coisa. 
Eu sou a coisa, coisamente.

Carlos Drummond de Andrade
 ANDRADE, C. D. Obra poética, Volumes 4-6. Lisboa: Publicações Europa-América, 1989.

terça-feira, 16 de maio de 2017

Colcha de Retalhos

Vocês já pararam para observar como é linda uma colcha de retalhos?
Uma simples colchas de retalhos que demora muito para ser feita. Pedaço por pedaço tem que ser costurado, um a um, com toda paciência do mundo.
Se os retalhos não ficam bem unidos, logo a colcha se desfaz e o encanto dela também. E se a colcha não é colorida, se os retalhos não são diferentes, de cores e tamanhos diferentes, a colcha de retalhos não fica bonita.
Em uma colcha de retalhos união e diferenças são essenciais e como é linda uma colcha de retalhos. No mundo e na vida deveria ser assim também! :)

quarta-feira, 19 de abril de 2017

Metade (Oswaldo Montenegro)

Que a força do medo que tenho
não me impeça de ver o que anseio
que a morte de tudo em que acredito
não me tape os ouvidos e a boca
porque metade de mim é o que eu grito
mas a outra metade é silêncio.

Que a música que ouço ao longe
seja linda ainda que tristeza
que a mulher que amo seja pra sempre amada
mesmo que distante
porque metade de mim é partida
mas a outra metade é saudade.

Que as palavras que eu falo
não sejam ouvidas como prece e nem repetidas com fervor
apenas respeitadas como a única coisa
que resta a um homem inundado de sentimentos
porque metade de mim é o que ouço
mas a outra metade é o que calo.

Que essa minha vontade de ir embora
se transforme na calma e na paz que eu mereço
e que essa tensão que me corrói por dentro
seja um dia recompensada
porque metade de mim é o que penso
mas a outra metade é um vulcão.

Que o medo da solidão se afaste
e que o convívio comigo mesmo se torne ao menos suportável
que o espelho reflita em meu rosto num doce sorriso
que eu me lembro ter dado na infância
porque metade de mim é a lembrança do que fui
a outra metade não sei.

Que não seja preciso mais do que uma simples alegria
pra me fazer aquietar o espírito
e que o teu silêncio me fale cada vez mais
porque metade de mim é abrigo
mas a outra metade é cansaço.

Que a arte nos aponte uma resposta
mesmo que ela não saiba
e que ninguém a tente complicar
porque é preciso simplicidade pra fazê-la florescer
porque metade de mim é platéia
e a outra metade é canção.

E que a minha loucura seja perdoada
porque metade de mim é amor
e a outra metade também.

terça-feira, 11 de abril de 2017

A VIGÍLIA DE HERO

"Tu amarás outras mulheres
E tu me esquecerás!
É tão cruel, mas é a vida.
E no entretanto
Alguma coisa em ti pertence-me!
Em mim alguma coisa és tu.
O lado espiritual do nosso amor
Nos marcou para sempre.
Oh, vem em pensamento nos meus braços!
Que eu te afeiçoe e acaricie...

Não sei porque te falo assim de coisas que não são.
Esta noite, de súbito, um aperto
De coração tão vivo e lancinante
Tive ao pensar numa separação!
Não sei que tenho, tão ansiosa e sem motivo.
Queria ver-te... estar ao pé de ti...
Cruel volúpia e profunda ternura dilaceram-me!

É como uma corrida, em minhas veias,
De fúrias e de santas para a ponta dos meus dedos
Que queriam tomar tua cabeça amada,
Afagar tua fronte e teus cabelos,
Prender-te a mim por que jamais tu me escapasses!

Oh, quisera não ser tão voluptuosa!
E todavia
Quanta delícia ao nosso amor traz a volúpia!
Mas faz sofrer... inquieta...
Ah, com que poderei contentá-la jamais?
Quisera calmá-la na música...
Ouvir muito, ouvir muito...
Sinto-me terna... e sou cruel e melancólica!

Possui-me como sou na ampla noite pressaga!
Sente o inefável!
Guarda apenas a ventura
Do meu desejo ardendo a sós
Na treva imensa...
Ah, se eu ouvisse a tua voz!"

Manuel Bandeira
 BANDEIRA, M., Estrela da Vida Inteira, Poesias Reunidas. Rio de Janeiro: José Olympio, 1973.