terça-feira, 13 de junho de 2017

Sobre cartas

Estava a conversar com amigos sobre cartas e mensagens de suicídio.
É um clichê alguém deixar cartas de despedida, mas, por outro lado, é bom poder se despedir. Tanta gente morre sem ao menos ter tido a chance de dizer adeus. Sem ter tido a chance de falar como se sentia, tudo o que sentia, sem ter tirado as máscaras.
Não, não pretendo cometer suicídio, mas, a ideia de simplesmente morrer sem dizer tudo que há dentro de mim, ou ao menos sem tentar dizer, me é assustadora. Aterroriza-me, arrepia-me até o último pelo do corpo. Portanto, vez ou outra escreverei cartas.
Não, não serão cartas de despedidas, serão cartas de sentimentos, cartas da verdade. De mim, para as pessoas que fizeram/fazem parte da minha vida. De mim para você, talvez.

Sobre o amor, de novo!

O amor é lindo!
Sim, não é por que não tenho ninguém que direi o contrário. Eu sempre fui defensora convicta do amor, mas, eu não conheço o amor (entenda por amor o quiser entender). Eu conheço a dor, a solidão, o medo e até as borboletas no estômago, mas, não conheço o amor, não conheço mas, ainda assim dele sou fã.
O amor, ah, o amor! É complexo, irônico, traiçoeiro, sorrateiro e lindo. Por que se dói, se machuca, se faz sofrer, se você pode viver sem, não é amor nenhum.













sexta-feira, 19 de maio de 2017

EU, ETIQUETA (Carlos Drummond de Andrade)

Em minha calça está grudado um nome 
que não é meu de batismo ou de cartório, 
um nome... estranho. 
Meu blusão traz lembrete de bebida 
que jamais pus na boca, nesta vida.
Em minha camiseta, a marca de cigarro 
que não fumo, até hoje não fumei. 
Minhas meias falam de produto 
que nunca experimentei 
mas são comunicados a meus pés. 
Meu tênis é proclama colorido 
de alguma coisa não provada 
por este provador de longa idade. 
Meu lenço, meu relógio, meu chaveiro, 
minha gravata e cinto e escova e pente, 
meu copo, minha xícara, 
minha toalha de banho e sabonete, 
meu isso, meu aquilo, 
desde a cabeça ao bico dos sapatos, 
são mensagens, 
letras falantes, 
gritos visuais, 
ordens de uso, abuso, reincidência, 
costume, hábito, premência, 
indispensabilidade, 
e fazem de mim homem-anúncio itinerante, 
escravo da matéria anunciada. 
Estou, estou na moda. 
É duro andar na moda, ainda que a moda 
seja negar minha identidade, 
trocá-la por mil, açambarcando 
todas as marcas registradas, 
todos os logotipos do mercado. 
Com que inocência demito-me de ser 
eu que antes era e me sabia 
tão diverso de outros, tão mim mesmo, 
ser pensante, sentinte e solidário 
com outros seres diversos e conscientes 
de sua humana, invencível condição. 
Agora sou anúncio,
ora vulgar ora bizarro, 
em língua nacional ou em qualquer língua 
(qualquer, principalmente). 
E nisto me comparo, tiro glória 
de minha anulação. 
Não sou - vê lá - anúncio contratado. 
Eu é que mimosamente pago 
para anunciar, para vender 
em bares festas praias pérgulas piscinas, 
e bem à vista exibo esta etiqueta 
global no corpo que desiste 
de ser veste e sandália de uma essência 
tão viva, independente, 
que moda ou suborno algum a compromete. 
Onde terei jogado fora 
meu gosto e capacidade de escolher, 
minhas idiossincrasias tão pessoais, 
tão minhas que no rosto se espelhavam 
e cada gesto, cada olhar 
cada vinco da roupa 
sou gravado de forma universal, 
saio da estamparia, não de casa, 
da vitrine me tiram, recolocam, 
objeto pulsante mas objeto 
que se oferece como signo de outros 
objetos estáticos, tarifados. 
Por me ostentar assim, tão orgulhoso 
de ser não eu, mas artigo industrial, 
peço que meu nome retifiquem. 
Já não me convém o título de homem. 
Meu nome novo é coisa. 
Eu sou a coisa, coisamente.

Carlos Drummond de Andrade
 ANDRADE, C. D. Obra poética, Volumes 4-6. Lisboa: Publicações Europa-América, 1989.

terça-feira, 16 de maio de 2017

Colcha de Retalhos

Vocês já pararam para observar como é linda uma colcha de retalhos?
Uma simples colchas de retalhos que demora muito para ser feita. Pedaço por pedaço tem que ser costurado, um a um, com toda paciência do mundo.
Se os retalhos não ficam bem unidos, logo a colcha se desfaz e o encanto dela também. E se a colcha não é colorida, se os retalhos não são diferentes, de cores e tamanhos diferentes, a colcha de retalhos não fica bonita.
Em uma colcha de retalhos união e diferenças são essenciais e como é linda uma colcha de retalhos. No mundo e na vida deveria ser assim também! :)

quarta-feira, 19 de abril de 2017

Metade (Oswaldo Montenegro)

Que a força do medo que tenho
não me impeça de ver o que anseio
que a morte de tudo em que acredito
não me tape os ouvidos e a boca
porque metade de mim é o que eu grito
mas a outra metade é silêncio.

Que a música que ouço ao longe
seja linda ainda que tristeza
que a mulher que amo seja pra sempre amada
mesmo que distante
porque metade de mim é partida
mas a outra metade é saudade.

Que as palavras que eu falo
não sejam ouvidas como prece e nem repetidas com fervor
apenas respeitadas como a única coisa
que resta a um homem inundado de sentimentos
porque metade de mim é o que ouço
mas a outra metade é o que calo.

Que essa minha vontade de ir embora
se transforme na calma e na paz que eu mereço
e que essa tensão que me corrói por dentro
seja um dia recompensada
porque metade de mim é o que penso
mas a outra metade é um vulcão.

Que o medo da solidão se afaste
e que o convívio comigo mesmo se torne ao menos suportável
que o espelho reflita em meu rosto num doce sorriso
que eu me lembro ter dado na infância
porque metade de mim é a lembrança do que fui
a outra metade não sei.

Que não seja preciso mais do que uma simples alegria
pra me fazer aquietar o espírito
e que o teu silêncio me fale cada vez mais
porque metade de mim é abrigo
mas a outra metade é cansaço.

Que a arte nos aponte uma resposta
mesmo que ela não saiba
e que ninguém a tente complicar
porque é preciso simplicidade pra fazê-la florescer
porque metade de mim é platéia
e a outra metade é canção.

E que a minha loucura seja perdoada
porque metade de mim é amor
e a outra metade também.

terça-feira, 11 de abril de 2017

A VIGÍLIA DE HERO

"Tu amarás outras mulheres
E tu me esquecerás!
É tão cruel, mas é a vida.
E no entretanto
Alguma coisa em ti pertence-me!
Em mim alguma coisa és tu.
O lado espiritual do nosso amor
Nos marcou para sempre.
Oh, vem em pensamento nos meus braços!
Que eu te afeiçoe e acaricie...

Não sei porque te falo assim de coisas que não são.
Esta noite, de súbito, um aperto
De coração tão vivo e lancinante
Tive ao pensar numa separação!
Não sei que tenho, tão ansiosa e sem motivo.
Queria ver-te... estar ao pé de ti...
Cruel volúpia e profunda ternura dilaceram-me!

É como uma corrida, em minhas veias,
De fúrias e de santas para a ponta dos meus dedos
Que queriam tomar tua cabeça amada,
Afagar tua fronte e teus cabelos,
Prender-te a mim por que jamais tu me escapasses!

Oh, quisera não ser tão voluptuosa!
E todavia
Quanta delícia ao nosso amor traz a volúpia!
Mas faz sofrer... inquieta...
Ah, com que poderei contentá-la jamais?
Quisera calmá-la na música...
Ouvir muito, ouvir muito...
Sinto-me terna... e sou cruel e melancólica!

Possui-me como sou na ampla noite pressaga!
Sente o inefável!
Guarda apenas a ventura
Do meu desejo ardendo a sós
Na treva imensa...
Ah, se eu ouvisse a tua voz!"

Manuel Bandeira
 BANDEIRA, M., Estrela da Vida Inteira, Poesias Reunidas. Rio de Janeiro: José Olympio, 1973.

quarta-feira, 5 de abril de 2017

Sobre amor, sim!

Rainer Maria Rilke, disse à um jovem poeta que evitasse escrever sobre amor, algo demasiadamente comum, sobre o qual muitos já falam.
Mas, contrariando esse conselho, cá estou eu, uma aspirante a aspirante de escritora, para escrever sobre amor.
O amor é lindo!
Sim, o amor é e sempre será lindo, por que o amor é puro, é perfeito. O amor não machuca. Saudade machuca, falta de amor machuca, rejeição machuca... Amor? Amor cura! Amor muda! Amor transforma!
O amor transforma dias cinzentos em lindos dias cinzentos, ou simplesmente em dias magnificamente coloridos.
Amar e ser amado é uma das melhores coisas do mundo. Nunca tive essa experiência, mas, tenho certeza que é. Basta ver o jeito bobo como os apaixonados agem, eles são leves, são felizes, eles falam o tempo inteiro um do outro, eles são tão fofos que dá vontade de colocá-los num potinho e protegê-los de todo mal, para que nada abalem seus sonhos e que a vida não destrua tal amor. O amor melhora as pessoas, e se não melhorar, não é amor. Parece que ninguém se torna uma pessoa ruim quando ama e é amada.
O amor cria uma deliciosa relação de respeito, carinho, dedicação entre duas pessoas. Elas se ajudam, se entendem (só com um olhar às vezes). Um casal que se ama torna-se um só, mas, mesmo que possuam um coração, o amor preserva a particularidade de cada um, ao mesmo.
Pensando bem, Rilke tinha razão, é tão difícil falar de amor, mas, é tão impossível não falar.
Termino esse pequeno texto com um trecho de uma música do Lenine que agora me veio à mente:
" Amor é pra quem ama
Amor matéria-prima
A chama
O sumo
A soma
O tema..."

domingo, 26 de março de 2017

A medida da paixão (Lenine)

"É como se a gente
Não soubesse
Prá que lado foi a vida
Por que tanta solidão?
E não é a dor
Que me entristece
É não ter uma saída
Nem medida na paixão...

Foi!
O amor se foi perdido
Foi tão distraído
Que nem me avisou
Foi!
O amor se foi calado
Tão desesperado
Que me machucou...

É como se a gente
Pressentisse
Tudo que o amor não disse
Diz agora essa aflição
E ficou o cheiro pelo ar
Ficou o medo de ficar
Vazio demais meu coração...

Foi!
O amor se foi perdido
Foi tão distraído
Que nem me avisou
Nem me avisou!
Foi!
O amor se foi calado
Tão desesperado
Que me maltratou..."

Onde estou?

Onde estou?

Perdida
Palavra pra me definir
Sei que estou no lugar certo
Mas, onde me encaixo aqui?

Perdida
E não sei o que fazer
Eu não sei como agir
Não sei nem o que dizer

Perdida
E não sei como agir
Não quero ser quem não sou
Mas, quero poder interagir

Perdida
É sempre assim comigo
Sou tola e desinteressante
Difícil fazer amigos

Perdida
Não sei como agradar
Agradar e ser verdadeira
E conseguir me encaixar

Perdida
Vitimismo, drama
Não dá pra expressar o que sente
Fico jogada na lama

Forçando a barra

26 de março de 2017

Querido diário... Não, péra...

Querido blog,

Nesse fim de semana eu fiquei na bad mais uma vez, só para variar, e eu cheguei a conclusão de que estou forçando muito a barra para ter amigos e para as pessoas gostarem de mim.
Eu me sinto perdida, invisível, mal interpretada e incompreendida. Talvez eu não esteja passando uma boa impressão, talvez para as pessoas eu seja só uma falsa querendo aparecer, mas, eu não sou assim, eu não sou uma cobra. Essa minha mania de querer agradar a todos está me destruindo. Eu sei que nem Jesus agradou a todos, como diz o ditado, eu não sei por que insisto em querer agradar.
Sabe, as pessoas aqui são diferentes, ser a nerd que dá cola para turma e faz todos os trabalhos não funciona na faculdade, eu não sou uma das mais inteligentes da sala, eu sou só mais uma, e isso não me ajuda a fazer amizades. As pessoas não estão interessadas em minha inteligência (eu nem possuo mais), em meu gosto musical, elas não estão interessadas em mim, e forçar a barra só me faz parecer chata e falsa.
Eu podia ser a descolada da turma, mas, isso não combina comigo, nem com a minha situação financeira, então decidi que serei só eu, não vou tentar ser venenosa, nem engraçada, nem nada. Vou ser só a pessoinha sem sal e continuar tentando ajudar como eu sempre fiz. Não posso perder minha essência tentando agradar a outras pessoas, por que depois eu me perco e ainda por cima não agrado a ninguém. Então segura na mão de Deus e vai...