terça-feira, 1 de outubro de 2013

Antônia & Lucius

Antônia era uma garota tímida, 17 anos, alta e magra, usava óculos, tinha vergonha das suas orelhas, por isso, deixava seus cabelos lisos e escuros sempre soltos, para escondê-las e tinha uma risada para lá de engraçada, era muito bonita, todos achavam, menos ela. Cursava o último ano no Falconery High School, era uma ótima aluna, sempre fazia todas as lições, e sempre se saía bem em todos os exames, de todas as disciplinas. Não acreditava em vampiros, nem em outras criaturas. 
Ela não gostava de sair de casa, quase nunca deixava seu mundo, vivia sempre estudando, seus livros eram sua companhia e odiava ir a festas. Não era como a maioria dos jovens da sua idade, mas também não era a única a ser assim, era assim como outros jovens, um pouco diferente. 
A garota seguia sua vida, ia para o colégio, voltava, fazia as lições de casa, dormia um pouco e voltava a estudar, estava se preparando para entrar em uma faculdade. Sua irmã, muito preocupada com o seu futuro, insistia para que ela se matriculasse em um curso extraescolar à noite. Como eu disse antes, ela não gostava de sair de casa, principalmente depois das cinco da tarde, mas sua irmã insistiu tanto, que ela acabou seguindo seu conselho. 
Tudo ia bem, até que em uma noite, no curso, um garoto sentou-se ao seu lado, era o aluno novo de quem um dos professores falara na noite passada. Ele permaneceu calado e concentrado durante toda a aula, como uma estátua viva, mal se movia, ela tentou dizer oi, quebrar o gelo no seu jeito tímido, mas não adiantou, era como se ele simplesmente a ignorasse, "que garoto mais marrento e mais mal-educado!", ela pensou. 
Não pôde deixar de observá-lo, ele era alto, músculos bem definidos, usava boné, que lhe cobria os olhos, mas viu que seus cabelos eram castanhos acobreados. Ele usava calça jeans Levi's de cor escura e levemente justa, uma bota West Coast, uma camiseta preta Adidas e uma jaqueta de couro também preta, ela não entendia muito bem por que ele não a tirara, já que ali estava um calor infernal por conta da chegada do verão.
A aula acabou, o rapaz organizou rapidamente os livros na mochila e saiu. Antônia também organizou seu material e desceu as escadas rumo à saída, a aula havia durado mais do que ela esperava e a sua irmã, dessa vez não poderia lhe dar uma carona, então teria que caminhar até o ponto de ônibus mais próximo que ficava a uns 30 minutos dali. Tomou coragem, se despediu de uma colega com quem conversava sobre os difíceis cálculos de física, e quando se virou para começar o trajeto, o garoto apareceu do nada lhe dando o maior susto:
— Oi, te assustei, me desculpe, e desculpe também por não ter me apresentado antes, tava muito concentrado. 
Ele deu um leve sorriso, seus dentes eram perfeitamente alinhados e brancos, dessa vez havia tirado a jaqueta, ele era sedutoramente perfeito.
— Tudo bem, esta desculpado! Meu nome é Antônia 
— Muito obrigado! Meu nome é Lucius, bela senhorita. — Ele disse retirando o boné da cabeça e curvando-se em um gesto de cordialidade. Nesse momento, Antônia notou que seus olhos eram verdes como as imensas florestas, como o oceano em determinadas regiões. Possuía um olhar profundo, e misterioso. 
— Prazer em conhecê-la!
— Prazer em conhecê-lo!
— Sabe, Antônia, eu venho de um lugar muito distante e frio, cansei de viver como os meus pais uma vida monótona, saí de casa assim que terminei o colegial fui morar sozinho, curtir a vida, mas, decidi que era hora de voltar a estudar. 
— Mas, por que você veio morar aqui, nesse fim de mundo?
— Bem, aqui é tranquilo, e é o lugar perfeito para pessoas como eu, pessoas diferentes.
— Bem vindo ao clube então, também sou diferente, como você!
— Não, você não é como eu!
— Que? O que você é então engraçadinho?
Ele abriu um sorriso encantadoramente sínico
—Antônia, eu sou um vampiro!
— Ha, ha, ha, me engana que eu gosto!
Nesse momento Lucius puxou-a para um beco escuro, encostando-a contra a parede e mostrando-lhe sua verdadeira face, caninos enormes e pontiagudos, os olhos estavam negros como a noite. Ela se debatia na tentativa de se livrar dele, tentou gritar, mas ele tapou a sua boca com uma das mãos, abafando-lhe o grito. 
— Se eu lhe soltar, promete que não irá fugir?
— Prometo! 
Ele a soltou e fez um gesto para que ela se sentasse em cima de uma pilha de tijolos à sua frente. Ela obedeceu-lhe. Lucius deu um suspiro e começou a falar:
— Eu fui transformado uma semana depois de alugar um apartamento em Portland há dois anos atrás. Em uma noite linda e fria, eu fui a uma festa em uma casa de shows ali perto, foi lá que conheci a bela e sedutora Kate. Ela veio em minha direção e me ofereceu uma bebida, eu estava hipnotizado com tanta beleza, aceitei, e começamos a conversar. Depois da festa, ela me convidou para dar um passeio pela madrugada, como eu adorava o luar, e estava adorando a companhia, aceitei sem pestanejar. — Ele fez uma pausa. — achava que havia me apaixonado à primeira vista. Saímos a brindar na madrugada, ela parecia simplesmente incrível, mal sabia eu, que ela era, na verdade, uma vampira, e eu apenas mais uma de suas presas, seria o jantar da noite. — Os lábios dele se abriram em um leve sorriso, mas ele não estava feliz com aquela lembrança, havia tristeza e ódio em seu olhar.
— Ela me conduziu a um beco escuro e estreito, como esse. Nós começamos a nos beijar, até que ela se afastou abruptamente. Ficou de costas, eu perguntei o que estava acontecendo, coloquei a mão em seu ombro para que ela se virasse para mim, ela se virou, parecia outra pessoa, seus olhos negros, caninos pontiagudos, a bela Kate se transformara em uma criatura feroz. Com um sorriso assustador, ela me colocou contra a parede e disse: “Seus olhos são lindos Lucius, fique convencido disso, você será o jovem mais belo que já ataquei na vida. É uma pena ter que matá-lo, sugar a vida desse corpo tão jovem e forte, fazer esses olhos verdes se fecharem para sempre, mas, desculpe-me querido.” Então, ela cravou seus dentes em minha jugular, senti meu sangue sendo sugado, tudo em volta começou a girar e apaguei. Quando recobrei a consciência ela estava agachada ao meu lado, cortou o pulso com um canivete e colocou-o em minha boca, senti seu sangue escorrendo para dentro da minha garganta, era doce com néctar, eu engoli. Logo depois, ela cortou a minha garganta com o canivete, tudo se apagou, senti uma paz enorme e rapidamente seguida de um fogo insuportável que me consumia, era como se estivesse sendo queimado vivo. Depois o fogo deu lugar ao gelo, parecia estar congelando como alguém sem roupas em meio a neve, me sentia frio como uma lápide. Acordei novamente, dessa vez ela havia desaparecido. Coloquei a mão em minha garganta, não havia corte algum, mas ela queimava como brasa, sentia sede, uma sede incontrolável, dei sorte, um mendigo passava por ali, e o ataquei, cravei os dentes em seu pescoço, suguei seu sangue até a última gota. Saí pela cidade como uma fera descontrolada, não conseguia parar, sangue era tão bom, ainda é, na verdade. — Ele sorriu como criança ao falar de chocolate. Em fim, o sol nasceria em breve, e pelo que conhecia sobre vampiros, ele me transformaria em cinzas. Voltei para o apartamento e fechei todas as janelas, pela manhã vi que um raio de sol entrava por um pequeno furo em uma das cortinas, coloquei a mão e imediatamente ela começou a queimar, então, a tirei rapidamente, bem, eu estava certo. Aprendi a controlar a sede ao longo dos anos, descobri que água benta, alho e crucifixos são mitos, mas que estacas no coração e separar a cabeça para bem longe corpo, nos esquartejar e nos queimar, ou nos deixar no sol, funcionam muito bem.
Ele colocou-a novamente contra a parede imobilizando-a.
— Sabe Antônia, você é a jovem mais interessante que já conheci, seria uma pena matá-la, mas estou sedento, há dias não provo sangue humano, estou fraco. Sua pele branca deixando suas veias á mostra, são muito atraentes, ouço as batidas do seu coração, vejo seu sangue correndo na sua jugular. Não, não posso matá-la, mas... — Ele cravou os dentes no pescoço da jovem, calmamente, Antônia tentou resistir, mas não conseguia, viu tudo girar e logo depois apagou.
 Quando acordou, estava deitada em uma cama, logo percebeu que deveria estar na casa de Lucius. As janelas estavam todas fechadas, o quarto estaria na escuridão total, se não fosse por uma lâmpada fraca, que iluminava um pouco o local, até que era bem limpo, e não tinha nenhum caixão, ela sorriu ao imaginar Lucius em um caixão e ela lhe cravando uma estaca no coração. Pensou em abrir as janelas, mas mesmo que naquele momento, desejasse odiar Lucius, ela se sentia terrivelmente atraída por ele, não queria que ele morresse, pelos menos não daquela forma. Continuou a examinar o local, abriu uma gaveta, e encontrou lá, um porta-retrato empoeirado, limpou o vidro com a manga da blusa e viu que na foto havia um homem, uma mulher e um garoto, que só poderia ser Lucius, de repente ele apareceu:
— Eram meus pais, Matt e Louise James.  — Antônia tomou um baita susto, Lucius estava sentado sob a cômoda. Quando seu coração voltou aos batimentos normais, ela pode ver tristeza nos olhos dele.
— Ainda são seus pais!
— Não, nunca mais poderei vê-los. Bom, talvez você nunca me perdoe pelo que vou fazer com você agora. Em um piscar de olhos, Lucius a jogou na cama, Antônia viu-se completamente imobilizada. 
Ele mordeu seu próprio pulso e colocou-o sobre a boca dela, gotas de um sangue doce como néctar escorria através das marcas da mordida, Antônia sabia o que iria acontecer, mas, naquele momento, por mais incrível que pareça, era isso que queria, desejava aquilo, então ela engoliu o sangue de Lucius, que logo depois cravou um punhal em seu coração.
Antônia começou a sentir exatamente o que Lucius descrevera, quando fora transformado em vampiro. Acordou com a garganta queimando de sede, mas, não precisou atacar ninguém, pois o seu criador estava ao seu lado, segurando um garoto jovem, forte e desacordado em seus braços. Ela pode ver o liquido vermelho viscoso, o tão desejado sangue de que precisava correndo nas veias do jovem. Então o arrancou das mãos de Lucius e cravou seus dentes no seu pescoço, perfurando sua jugular, como um leão faminto devorando sua presa.  
Lucius estava completamente apaixonado por ela. De certo iria interferir, para que ela não matasse o garoto, sugando seu sangue até a última gota, não queria que ela se tornasse uma vampira assassina, nem que trouxesse problemas para os dois. Faria o rapaz esquecer o ocorrido hipnotizando-o, afinal essa era uma das inúmeras habilidades que adquirira. Ensinaria Antônia a como se controlar, aliviando-se da sede sem matar suas vítimas. Mas, por hora, se divertindo com a inexperiência da sua amada, seus olhos brilhavam e ele se sentia feliz pela primeira vez desde que se tornara imortal, então, para não estragar aquele momento apenas dizia em meio a um lindo e grandioso sorriso:
— Tenha calma Antônia!