domingo, 3 de novembro de 2013

Pobre Dona Morte

Tenho pena da Morte.
Todos a tratam como a coisa mais cruel e impiedosa, todos a odeiam e a repudiam. Ela não tem culpa, morrer é necessário. Ceifar vidas, com certeza é o pior emprego do mundo, de todos os mundos, ser a responsável pela libertação da alma, e ao mesmo tempo por tanta dor e sofrimento. Pobre Morte. Eu não queria jamais ser encarregada disso.
Ela não tem escolha, recebe a ordem, é chegada a hora daquele ser, e ela não pode dizer não, nunca pode dizer não, ás vezes, tem que levá-lo de forma tão cruel, retirar a alma de um corpo ainda tão jovem ou de maneira tão inesperada.
É claro que ela se recusa, algumas vezes ela hesita, sim, apesar de nunca poder dizer não, ela certamente já o pronunciou, deixando a alma lutar, lutar e lutar, por alguns dias ou meses, só então ela cede a pressão superior, e retira o sopro da Vida daquele corpo já sem forças. Ás vezes, ela deixa a alma ficar, são os milagres, o Ser superior, deixa a Morte poupar a Vida. Deixa a Vida vencer e prevalecer por mais algumas décadas. Mas, a Morte paga caro por isso.
Então, antes de amaldiçoar a Morte, antes de chorar inconformadamente, antes de desejá-la, lembre-se de que a Morte sempre foi e será condenada a matar, essa já é sua maldição, ela não pode se libertar, e deve odiar condenar as almas a subir em seu barco, deve odiar cravar a sua foice nos corpos humanos, deve odiar acabar com a vida, jamais a  force a fazer isso, nem a condene quando ela é forçada, é apenas o seu trabalho, e ele já é infinitamente horrível, mesmo que algumas almas sejam levadas ao paraíso ou para a vida eterna, não o torne ainda mais cruel, não o obrigue a ser pior.