sexta-feira, 27 de junho de 2014

A flautista fantasma

Essa história não é real, é uma obra de ficção, que poderá ter referências com a realidade.






Em uma pequena cidade, cercada por duas belas formações rochosas, havia uma orquestra filarmônica.

Era uma pequena orquestra com quase noventa anos de existência. Muitos passaram por ali, alguns, já faleceram, outros, seguiram caminhos diferentes, onde a participação na orquestra, infelizmente tivera de ser sacrificada.
Tudo era tranquilo e divertido na pequena sede onde os ensaios ocorriam, o clima de amizade pairava no lugar. Eram músicos bem diferentes entre si, e apesar de uma desavença ou outra, todos compartilhavam momentos de diversão, brincadeiras e histórias engraçadas, e até havia um clima de flerte no ar algumas vezes. 
Havia uma garota que fazia parte da orquestra, ela era flautista e se chamava Angelina. 
Angelina era tímida. Chegava cedo aos ensaios, saía assim que eles terminavam. Pouco se sabia sobre a garota, exceto que ela era solitária, inteligente, e que amava música. Angelina mal abria a boca, só conversava ás vezes com alguns colegas de orquestra e com o seu instrutor Samuel.
Um dia Angelina decidiu pedir a chave do lugar, disse que gostaria de ficar ensaiando até mais tarde, Angêlo, o responsável pelas chaves achou estranho, mas, o que poderia haver de mal?
No dia seguinte bem cedo, Angelina devolvera as chaves. O dia passou, e o ensaio de sexta ocorreu normalmente, mas, sem a presença de Angelina, o instrutor achou estranho, ligou para a mãe da garota, mas, a mãe lhe disse que ela já havia se recolhido.
No dia seguinte os integrantes principais da orquestra viajariam para fazer algumas apresentações, durante quatro dias, então não haveria ensaio. Angelina era flautista e novata, não possuia conhecimento suficiente sobre música, nem havia ensaiado o suficiente, logo, não poderia ir. 
Na noite do sábado, Angelina saiu, disse que iria à casa de uma colega, assistir a um filme com mais outros colegas de orquestra que haviam ficado. A mãe, estranhou, mas, ficou contente, por que finalmente sua filha estava tentando mais uma vez, se enturmar com as pessoas.
O dia amanheceu, e Angelina não chegara, a mãe foi à casa da colega de Angelina, mas, a garota dissera que ela nem sequer havia estado lá. Passou-se o domingo, e nada... Na segunda-feira, as duas emissoras de rádio já noticiavam o desaparecimento da garota, na cidade, não se falava em outra coisa. Alguns diziam que ela fora sequestrada, ou que fugira com algum namoradinho, pensou-se em estupro e assassinato, três colegas mais próximos foram interrogados. 
Era quarta-feira, seis e quinze da tarde, alguns integrantes da filarmônica aguardavam Ângelo e Samuel, para retomarem a rotina de ensaios. Seis e vinte Samuel chegou. 
Ás seis e vinte e cinco, Ângelo chegou, cumprimentou os demais músicos, abriu a grade, ao subir as escadas, notou um cheiro diferente, uma atmosfera diferente, um cheiro de morte. 
Poderia ser algum animal que havia morrido, apressou-se em abrir a porta. E lá estava Angelina, pendurada no teto por uma corda em volta do pescoço, um copo com ricinina quebrado, e a flauta cuidadosamente colocada sobre a cadeira, o albúm de partituras aberto em "Dois Corações", o nome do seu dobrado favorito. Um belo poema ao lado da partitura, e um diário, onde estava escrito todas as emoções, pensamentos e sentimentos da garota, um texto de despedida e um pedido: ter uma música criada em sua homenagem em que houvesse um solo de flauta.
Quarta-feira, seis e meia da tarde, chegava ao fim a busca por Angelina. 
Trombonistas, saxofonistas, trompetistas, e músicos em geral, todos choraram a morte da flautista. 
Não entendiam por que ela fizera aquilo. Mas, cumpririam a promessa.
Os músicos mais experientes, se uniram, compasso por compasso, nota por nota, e criaram o dobrado mais lindo e mais triste que poderia haver. O "Angelina", cujo o solo da flauta era tímido como a garota, porém o mais belo solo que já se ouvira.
E todas as noites durante a madrugada, pessoas ouviam um flautear que vinha da sede da orquestra. Alguns corajosos subiam e espiavam pelas frestas da janela, não viam nada, nem flauta, nem flautista, e a melodia cessava quando o dia amanhecia. 
Coincidência ou não, quase sempre o que se ouvia, era o dobrado "Dois Corações".