domingo, 3 de janeiro de 2016

Sedenta

Sou estudante de Economia, não que eu ame Economia, mas, por conveniência.
Estava a andar apressada pelo campus quase deserto, não chovia, mas, ventava muito, o vento uivava assombrosamente balançando as árvores que pareciam dançar em um balé sinistro e sincronizado. No céu sem estrelas, a lua cheia disputava lugar com as nuvens, em uma briga de gato e rato, onde elas estavam levando a melhor.
O prédio onde eu morava fica à poucas quadras da universidade, isso era bom, por que as aulas acabavam tarde, e era perigoso andar sozinha naquelas ruas depois das nove da noite.
Já havia saído do campus, e andava apressadamente pelas ruas, olhando para todos os lados, apertando os livros firmemente contra o peito. A ventania continuava, e com a outra mão, tentava controlar o longo vestido que acabava se entrelaçando entre minhas pernas fazendo-me tropeçar às vezes. O vestido feito com um tecido leve, estampado com as cores da estação (o absurdamente quente verão brasileiro), foi minha escolha para aquele dia, por que justamente naquele dia, decidi ir um pouco mais apresentável para a faculdade onde houvera  uma palestra sobre a crise econômica no país. Meu cabelo bastante enrolado, com muitos cachinhos que parecem molinhas estreitas, estava praticamente solto, mas, dois grampos o prendiam um pouco do lado direito, dando a impressão de que estava raspado e  destaque ao pequeno par de brincos  em minhas orelhas (ao menos destacá-los era minha intenção).
 Havia dobrado a esquina que dava para a rua do meu prédio,  caminhando ainda mais depressa e em alerta, quando um gato pula de um muro, caindo em cima dos sacos de lixo colocados na calçada, assustando-me... Senti meu coração disparar e quase sair pela boca, não consegui nem gritar de susto pois faltou-me a voz, mas passado o susto, continuei minha caminhada, dessa vez mais devagar, respirando fundo e pausadamente tentando diminuir o ritmo cardíaco. Acabei lembrando-me do dia em que estava na faculdade e um bichano entrou na sala de aula, repousando na mesa do professor, interrompendo a aula e fazendo todos rirem... Essa lembrança me distraiu e não percebi que já não haviam só eu e o felino na rua, até que o vi...
Estava encostado em um Ford preto, o qual eu não sabia o nome (sou péssima com nomes de carros), usava uma camisa preta, um jeans azul escuro, e coturnos também pretos. Vestia uma jaqueta escura, apesar do calor, e estava mexendo no celular, despreocupadamente. Parecia não notar minha presença, ou não se importar com ela.
O meu coração voltou a disparar, com medo, atravessei para o outro lado da rua, abraçando firmemente os livros, quase correndo e com a cabeça baixa, a mochila nas costas, as chaves do meu apartamento sacolejavam dentro da bolsa. Estava a poucos metros do prédio onde morava quando ele surgiu em minha frente de repente, parecia ter se teletransportado ou algo assim.
"É perigoso andar só por essa cidade à essa hora.", ele disse. Sua voz era grave e tinha um tom de sarcasmo. Não respondi, e tentei me desvia dele, que continuou interrompendo minha passagem. "É perigoso andar só por essa cidade à essa hora.", repetiu. Impeli e expeli o ar com força, antes de respondê-lo. Não tenho medo, eu disse, tentando parecer o mais calma e corajosa possível. "Não é o que me parece", ele falou sorrindo sarcasticamente, aproximando-se de mim, e olhando-me nos olhos. Seu olhar era tão negro que parecia haver capturado todas as noites mais escuras da histórias, assim como os seus cabelos.
Me preparava para tentar lhe dar uma resposta mais corajosa que a anterior, quando ele agarrou meu braço com força. Nessa hora, toda minha tentativa parecer corajosa e calma foi por água abaixo, me desesperei, sentia meu estômago embrulhar-se e o ar começando a faltar-me. Tentei socá-lo no rosto com toda minha força, mas, ele devia ter um metro e oitenta ou mais de altura, e desviava dos meus golpes com toda facilidade do mundo. Agarrou meu outro braço, e tentei chutá-lo, acertei sua canela, ele me soltou, eu corri desesperadamente... Distanciava-me dele cada vez mais, olhando para trás, para ver se estava sendo seguida, mas, ele estava parado com as mãos nos bolsos, observando-me.
As árvores na rua dançavam com o vento e eu continuava a correr, sempre me certificando se ele me seguia, aumentava cada vez mais a distância entre nós, quando ele apareceu em minha minha frente. Me esbarrei em seu corpo e caí. Seus caninos agora grandes e pontiagudos estavam à mostra, vi a morte em seus olhos. Eu era uma defensora ferrenha da não existência de seres sobrenaturais, mas, naquele momento, comecei a duvidar de mim mesma. Ele não era um ser humano comum, não podia ser, nem o mais veloz dos maratonistas era tão rápido.
Levantei-me cambaleando e tentei correr novamente, em vão. "Gosto quando elas correm, quando fogem, como bichinhos assustados, é divertido, mas, não estou com muito tempo para isso hoje", ele  disse e logo depois agarrou-me, envolvendo seu braço esquerdo em meu tronco, imobilizando-me. Eu comecei a sufocar, faltou-me forças para lutar. com a mão direita ele virou minha cabeça para o lado, e cravou seus dentes em meu pescoço.
Senti uma dor aguda, quase insuportável, senti meu sangue sair pelo corpo, minha garganta queimava, minha visão ficou embaçada, tudo em volta escureceu e começou a girar. Então apaguei...
Acordei com a visão embaçada, mas, conforme ela ficava nítida, pude perceber que estava sob um teto branco, um cheiro forte invadia minhas narinas, cheiro de hospital. Estava na UTI.  Minha garganta queimava, minha boca estava seca, eu pedia água balbuciando
 "Enfermeiro, ela acordou, ela acordou!"ouvi a voz da minha mãe, ela falava euforicamente, parecia chorar de alegria.
O enfermeiro veio, examinou meu pulso, "vou chamar o médico", ele falou. Pouco depois, o médico entrou pela porta, e até aquele momento, eu só pedia água, ninguém havia me dado água, eu só queria água. Examinou meu pulso novamente, aferiu minha pressão, auscultou meu coração, examinou meu olhos com uma lanterninha, anotou algo no prontuário, e finalmente, depois de eu haver pedido água dezenas de vezes, ele pediu ao enfermeiro que trouxesse.
O enfermeiro trouxe um copo com apenas metade de água, apenas metade, 100 ml no máximo, bebi aquela água como alguém que passara 40 dias no deserto, cheguei a engasgar um pouco, e o enfermeiro pediu que eu bebesse mais devagar. Pedi mais água, o médico autorizou que me trouxesse mais meio copo. Só depois de saciar um pouco a minha sede, senti que o meu pescoço latejava de dor, havia um curativo sobre a pele. Imaginei que havia sofrido um acidente, que havia passado por uma cirurgia, ou que havia algum corte em meu pescoço. Então, me veio a mente aquele olhar negro, olhar da morte, me lembrei do homem, do carro, da jaqueta, da minha rua, das árvores dançando, do gato, do vento, do vestido embaraçando-se em minhas pernas, dos livros, daquele estranho surgindo em minha frente, da sua velocidade sobrenatural, dos dentes pontiagudos sendo cravados em meu pescoço... Estava agitada, falava do homem, da rua, do carro, do homem, eu correndo, os olhos negros... Minha mãe pedia para eu ficar calma e segurava minha mão. Disse que eu havia sofrido um sequestro relâmpago, o bandido acabou ferindo-me no pescoço com algum objeto pontiagudo, pensou que eu estava morta, me jogou perto do campus da universidade, eu havia perdido muito sangue, mas, não havia sangue no lugar (por isso acreditavam na hipótese do sequestro). Eu precisei receber bolsas de sangue (ainda bem que as pessoas doam sangue), e tinha ficado em coma por alguns dias, mas, ficaria bem, a perda de sangue não me causaria maiores danos, havia escapado da morte, foi um milagre, minha mãe dizia.
Não, eu não havia sonhado, não fui vítima de um sequestro relâmpago que não acabou da forma que o bandido queria, fui vítima de um vampiro, era um vampiro...