sexta-feira, 4 de março de 2016

Trovoa - Maurício Pereira

Minha cabeça trovoa, sob meu peito te trovo e me ajoelho, destino canções pros teus olhos vermelhos, flores vermelhas, vênus, bônus tudo o que me for possível ou menos... (mais ou menos...), me entrego, ofereço, reverencio a tua beleza, física também mas,não só, não só. Graças a Deus você existe! Acho que eu teria um troço se você dissesse que não tem negócio, te ergo com as mãos, sorrio mal, mal sorrio, meus olhos fechados te acossam fora de órbita, descabelada, diva, súbita... Súbita...
Seja meiga, seja objetiva, seja faca na manteiga! Pressinto como você chega ligeira, vasculhando a minha tralha, bagunçando a minha cabeça, metralhando na quinquilharia que carrego comigo (clipes, grampos, tônicos): toda a dureza incrível do meu coração feita em pedaços...
Minha cabeça trovoa, sob teu peito eu encontro a calmaria e o silêncio no portão da tua casa, no bairro famílias assistem tevê (eu não).
Às 8 da noite eu fumo um marlboro, na rua como todo mundo e como você eu sei (quer dizer, eu acho que sei... eu acho que sei...). Vou sossegado e assobio e é porque eu confio em teu carinho, mesmo que ele venha num tapa, e caminho a pé pelas ruas da Lapa (logo cedo, vapor... acredita?), a fuligem me ofusca, a friagem me cotuca, nascer do sol visto da Vila Ipojuca, o aço fino da navalha me faz a barba, o aço frio do metrô, o halo fino da tua presença.
Sozinha na padoca em Santa Cecília, no meio da tarde, soluça, quer dizer, relembra, batucando com as unhas coloridas na borda de um copo de cerveja, resmunga quando vê que ganha chicletes de troco.
Lembrando que um dia eu falei, "sabe, você tá tão chique meio freak, anos 70, fique! Fica comigo, se você for embora eu vou virar mendigo, eu não sirvo pra nada, não vou ser teu amigo. Fique! Fica comigo...".
Minha cabeça trovoa, sob teu manto me entrego ao desafio de te dar um beijo, entender o teu desejo, me atirar pros teus peitos. Meu amor é imenso, maior do que penso, é denso, espessa nuvem de incenso de perfume intenso e o simples ato de cheirar-te me cheira a arte, me leva a Marte, a qualquer parte, a parte que ativa a química, química...
Ignora a mímica e a educação física, só se abastece de mágica.
Explode uma garrafa térmica por sobre as mesas de fórmica de um salão de cerâmica, onde soem os cânticos, convicção monogâmica, deslocamento atômico para um instante único, em que o poema mais lírico se mostre a coisa mais lógica.
E se abraçar com força descomunal, até que os braços queiram arrebentar toda a defesa que hoje possa existir e, por acaso, queira nos afastar esse momento tão pequeno e gentil e a beleza que ele pode abrigar.
Querida, nunca mais se deixe esquecer onde nasce e mora todo o amor