sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

Olha Só, Moreno (Mallu Magalhães)

Olha só, moreno do cabelo enroladinho
Vê se olha com carinho pro nosso amor
Eu sei que é complicado amar tão devagarinho
E eu também tenho tanto medo
Eu sei que o tempo anda difícil e a vida tropeçando
Mas se a gente vai juntinho, vai bem
Eu não sei se você sabe, mas eu ando aqui tentando
E a gente tem o eterno amor de além

E eu me pergunto o que é que eu sou
Vai ver eu não sou mesmo nada
E eu me pergunto o que é que eu fiz
Vai ver eu não fiz mesmo nada
Eu penso tanto em desistir
Mas afinal, não ganhei nada

Trovoa (Maurício Pereira)

Minha cabeça trovoa
sob meu peito te trovo
e me ajoelho
destino canções pros teus olhos vermelhos
flores vermelhas, vênus, bônus
tudo o que me for possível
ou menos
(mais ou menos)
me entrego, ofereço
reverencio a tua beleza
física também
mas não só
não só

graças a Deus você existe
acho que eu teria um troço
se você dissesse que não tem negócio
te ergo com as mãos
sorrio mal
mal sorrio
meus olhos fechados te acossam
fora de órbita
descabelada
diva
súbita…
súbita…

seja meiga, seja objetiva
seja faca na manteiga
pressinto como você chega
ligeira
vasculhando a minha tralha
bagunçando a minha cabeça
metralhando na quinquilharia
que carrego comigo
(clipes, grampos, tônicos):
toda a dureza incrível do meu coração
feita em pedaços…

minha cabeça trovoa
sob teu peito eu encontro
a calmaria e o silêncio
no portão da tua casa no bairro
famílias assistem tevê
(eu não)
às 8 da noite
eu fumo um marlboro na rua como todo mundo e como você
eu sei
quer dizer
eu acho que sei…
eu acho que sei…

vou sossegado e assobio
e é porque eu confio
em teu carinho
mesmo que ele venha num tapa
e caminho a pé pelas ruas da Lapa
(logo cedo, vapor… acredita?)
a fuligem me ofusca
a friagem me cutuca
nascer do sol visto da Vila Ipojuca
o aço fino da navalha me faz a barba
o aço frio do metrô
o halo fino da tua presença

sozinha na padoca em Santa Cecília
no meio da tarde
soluça, quer dizer, relembra
batucando com as unhas coloridas
na borda de um copo de cerveja
resmunga quando vê
que ganha chicletes de troco

lebrando que um dia eu falei
"sabe, você tá tão chique
meio freak, anos 70
fique
fica comigo
se você for embora eu vou virar mendigo
eu não sirvo pra nada
não vou ser teu amigo
fique
fica comigo…"

minha cabeça trovoa
sob teu manto me entrego
ao desafio de te dar um beijo
entender o teu desejo
me atirar pros teus peitos
meu amor é imenso
maior do que penso
é denso
espessa nuvem de incenso de perfume intenso
e o simples ato de cheirar-te
me cheira a arte
me leva a Marte
a qualquer parte
a parte que ativa a química
química…

ignora a mímica
e a educação física
só se abastece de mágica
explode uma garrafa térmica
por sobre as mesas de fórmica
de um salão de cerâmica
onde soem os cânticos
convicção monogâmica
deslocamento atômico
para um instante único
em que o poema mais lírico
se mostre a coisa mais lógica

e se abraçar com força descomunal
até que os braços queiram arrebentar
toda a defesa que hoje possa existir
e por acaso queira nos afastar
esse momento tão pequeno e gentil
e a beleza que ele pode abrigar
querida nunca mais se deixe esquecer
onde nasce e mora todo o amor

domingo, 3 de janeiro de 2016

Volta (Johnny Hooker)


Volta
Que o caminho dessa dor me atravessa
Que a vida não mais me interessa
Se você vai viver com um outro rapaz

Volta
Que eu perdoo teus caminhos, teus vícios
Que eu volto até o início
Te carregando mais uma vez de volta do bar

Volta
Que sem você eu já não posso viver
É impossível ter de escolher
Entre teu cheiro e nada mais

Volta
Me diz que o nosso amor não é uma mentira
E que você ainda precisa
Mais uma vez se desculpar

Então procurei
Nos bares da Aurora me lamentei
E confesso que talvez joguei
Tuas fotos e discos no mar

Então procurei
Pelo teu cheiro nas ruas que andei
Nos corpos dos homens que amei
Tentando em vão te encontrar

Então procurei
Nos bares da Aurora me lamentei
E confesso que talvez joguei
Tuas fotos e discos no mar

Então procurei
Pelo teu cheiro nas ruas que andei
Nos corpos dos homens que amei
Tentando em vão te encontrar

Sedenta

Sou estudante de Economia, não que eu ame Economia, mas, por conveniência.
Estava a andar apressada pelo campus quase deserto, não chovia, mas, ventava muito, o vento uivava assombrosamente balançando as árvores que pareciam dançar em um balé sinistro e sincronizado. No céu sem estrelas, a lua cheia disputava lugar com as nuvens, em uma briga de gato e rato, onde elas estavam levando a melhor.
O prédio onde eu morava fica à poucas quadras da universidade, isso era bom, por que as aulas acabavam tarde, e era perigoso andar sozinha naquelas ruas depois das nove da noite.
Já havia saído do campus, e andava apressadamente pelas ruas, olhando para todos os lados, apertando os livros firmemente contra o peito. A ventania continuava, e com a outra mão, tentava controlar o longo vestido que acabava se entrelaçando entre minhas pernas fazendo-me tropeçar às vezes. O vestido feito com um tecido leve, estampado com as cores da estação (o absurdamente quente verão brasileiro), foi minha escolha para aquele dia, por que justamente naquele dia, decidi ir um pouco mais apresentável para a faculdade onde houvera  uma palestra sobre a crise econômica no país. Meu cabelo bastante enrolado, com muitos cachinhos que parecem molinhas estreitas, estava praticamente solto, mas, dois grampos o prendiam um pouco do lado direito, dando a impressão de que estava raspado e  destaque ao pequeno par de brincos  em minhas orelhas (ao menos destacá-los era minha intenção).
 Havia dobrado a esquina que dava para a rua do meu prédio,  caminhando ainda mais depressa e em alerta, quando um gato pula de um muro, caindo em cima dos sacos de lixo colocados na calçada, assustando-me... Senti meu coração disparar e quase sair pela boca, não consegui nem gritar de susto pois faltou-me a voz, mas passado o susto, continuei minha caminhada, dessa vez mais devagar, respirando fundo e pausadamente tentando diminuir o ritmo cardíaco. Acabei lembrando-me do dia em que estava na faculdade e um bichano entrou na sala de aula, repousando na mesa do professor, interrompendo a aula e fazendo todos rirem... Essa lembrança me distraiu e não percebi que já não haviam só eu e o felino na rua, até que o vi...
Estava encostado em um Ford preto, o qual eu não sabia o nome (sou péssima com nomes de carros), usava uma camisa preta, um jeans azul escuro, e coturnos também pretos. Vestia uma jaqueta escura, apesar do calor, e estava mexendo no celular, despreocupadamente. Parecia não notar minha presença, ou não se importar com ela.
O meu coração voltou a disparar, com medo, atravessei para o outro lado da rua, abraçando firmemente os livros, quase correndo e com a cabeça baixa, a mochila nas costas, as chaves do meu apartamento sacolejavam dentro da bolsa. Estava a poucos metros do prédio onde morava quando ele surgiu em minha frente de repente, parecia ter se teletransportado ou algo assim.
"É perigoso andar só por essa cidade à essa hora.", ele disse. Sua voz era grave e tinha um tom de sarcasmo. Não respondi, e tentei me desvia dele, que continuou interrompendo minha passagem. "É perigoso andar só por essa cidade à essa hora.", repetiu. Impeli e expeli o ar com força, antes de respondê-lo. Não tenho medo, eu disse, tentando parecer o mais calma e corajosa possível. "Não é o que me parece", ele falou sorrindo sarcasticamente, aproximando-se de mim, e olhando-me nos olhos. Seu olhar era tão negro que parecia haver capturado todas as noites mais escuras da histórias, assim como os seus cabelos.
Me preparava para tentar lhe dar uma resposta mais corajosa que a anterior, quando ele agarrou meu braço com força. Nessa hora, toda minha tentativa parecer corajosa e calma foi por água abaixo, me desesperei, sentia meu estômago embrulhar-se e o ar começando a faltar-me. Tentei socá-lo no rosto com toda minha força, mas, ele devia ter um metro e oitenta ou mais de altura, e desviava dos meus golpes com toda facilidade do mundo. Agarrou meu outro braço, e tentei chutá-lo, acertei sua canela, ele me soltou, eu corri desesperadamente... Distanciava-me dele cada vez mais, olhando para trás, para ver se estava sendo seguida, mas, ele estava parado com as mãos nos bolsos, observando-me.
As árvores na rua dançavam com o vento e eu continuava a correr, sempre me certificando se ele me seguia, aumentava cada vez mais a distância entre nós, quando ele apareceu em minha minha frente. Me esbarrei em seu corpo e caí. Seus caninos agora grandes e pontiagudos estavam à mostra, vi a morte em seus olhos. Eu era uma defensora ferrenha da não existência de seres sobrenaturais, mas, naquele momento, comecei a duvidar de mim mesma. Ele não era um ser humano comum, não podia ser, nem o mais veloz dos maratonistas era tão rápido.
Levantei-me cambaleando e tentei correr novamente, em vão. "Gosto quando elas correm, quando fogem, como bichinhos assustados, é divertido, mas, não estou com muito tempo para isso hoje", ele  disse e logo depois agarrou-me, envolvendo seu braço esquerdo em meu tronco, imobilizando-me. Eu comecei a sufocar, faltou-me forças para lutar. com a mão direita ele virou minha cabeça para o lado, e cravou seus dentes em meu pescoço.
Senti uma dor aguda, quase insuportável, senti meu sangue sair pelo corpo, minha garganta queimava, minha visão ficou embaçada, tudo em volta escureceu e começou a girar. Então apaguei...
Acordei com a visão embaçada, mas, conforme ela ficava nítida, pude perceber que estava sob um teto branco, um cheiro forte invadia minhas narinas, cheiro de hospital. Estava na UTI.  Minha garganta queimava, minha boca estava seca, eu pedia água balbuciando
 "Enfermeiro, ela acordou, ela acordou!"ouvi a voz da minha mãe, ela falava euforicamente, parecia chorar de alegria.
O enfermeiro veio, examinou meu pulso, "vou chamar o médico", ele falou. Pouco depois, o médico entrou pela porta, e até aquele momento, eu só pedia água, ninguém havia me dado água, eu só queria água. Examinou meu pulso novamente, aferiu minha pressão, auscultou meu coração, examinou meu olhos com uma lanterninha, anotou algo no prontuário, e finalmente, depois de eu haver pedido água dezenas de vezes, ele pediu ao enfermeiro que trouxesse.
O enfermeiro trouxe um copo com apenas metade de água, apenas metade, 100 ml no máximo, bebi aquela água como alguém que passara 40 dias no deserto, cheguei a engasgar um pouco, e o enfermeiro pediu que eu bebesse mais devagar. Pedi mais água, o médico autorizou que me trouxesse mais meio copo. Só depois de saciar um pouco a minha sede, senti que o meu pescoço latejava de dor, havia um curativo sobre a pele. Imaginei que havia sofrido um acidente, que havia passado por uma cirurgia, ou que havia algum corte em meu pescoço. Então, me veio a mente aquele olhar negro, olhar da morte, me lembrei do homem, do carro, da jaqueta, da minha rua, das árvores dançando, do gato, do vento, do vestido embaraçando-se em minhas pernas, dos livros, daquele estranho surgindo em minha frente, da sua velocidade sobrenatural, dos dentes pontiagudos sendo cravados em meu pescoço... Estava agitada, falava do homem, da rua, do carro, do homem, eu correndo, os olhos negros... Minha mãe pedia para eu ficar calma e segurava minha mão. Disse que eu havia sofrido um sequestro relâmpago, o bandido acabou ferindo-me no pescoço com algum objeto pontiagudo, pensou que eu estava morta, me jogou perto do campus da universidade, eu havia perdido muito sangue, mas, não havia sangue no lugar (por isso acreditavam na hipótese do sequestro). Eu precisei receber bolsas de sangue (ainda bem que as pessoas doam sangue), e tinha ficado em coma por alguns dias, mas, ficaria bem, a perda de sangue não me causaria maiores danos, havia escapado da morte, foi um milagre, minha mãe dizia.
Não, eu não havia sonhado, não fui vítima de um sequestro relâmpago que não acabou da forma que o bandido queria, fui vítima de um vampiro, era um vampiro...