quarta-feira, 19 de abril de 2017

Metade (Oswaldo Montenegro)

Que a força do medo que tenho
não me impeça de ver o que anseio
que a morte de tudo em que acredito
não me tape os ouvidos e a boca
porque metade de mim é o que eu grito
mas a outra metade é silêncio.

Que a música que ouço ao longe
seja linda ainda que tristeza
que a mulher que amo seja pra sempre amada
mesmo que distante
porque metade de mim é partida
mas a outra metade é saudade.

Que as palavras que eu falo
não sejam ouvidas como prece e nem repetidas com fervor
apenas respeitadas como a única coisa
que resta a um homem inundado de sentimentos
porque metade de mim é o que ouço
mas a outra metade é o que calo.

Que essa minha vontade de ir embora
se transforme na calma e na paz que eu mereço
e que essa tensão que me corrói por dentro
seja um dia recompensada
porque metade de mim é o que penso
mas a outra metade é um vulcão.

Que o medo da solidão se afaste
e que o convívio comigo mesmo se torne ao menos suportável
que o espelho reflita em meu rosto num doce sorriso
que eu me lembro ter dado na infância
porque metade de mim é a lembrança do que fui
a outra metade não sei.

Que não seja preciso mais do que uma simples alegria
pra me fazer aquietar o espírito
e que o teu silêncio me fale cada vez mais
porque metade de mim é abrigo
mas a outra metade é cansaço.

Que a arte nos aponte uma resposta
mesmo que ela não saiba
e que ninguém a tente complicar
porque é preciso simplicidade pra fazê-la florescer
porque metade de mim é platéia
e a outra metade é canção.

E que a minha loucura seja perdoada
porque metade de mim é amor
e a outra metade também.

terça-feira, 11 de abril de 2017

A VIGÍLIA DE HERO

"Tu amarás outras mulheres
E tu me esquecerás!
É tão cruel, mas é a vida.
E no entretanto
Alguma coisa em ti pertence-me!
Em mim alguma coisa és tu.
O lado espiritual do nosso amor
Nos marcou para sempre.
Oh, vem em pensamento nos meus braços!
Que eu te afeiçoe e acaricie...

Não sei porque te falo assim de coisas que não são.
Esta noite, de súbito, um aperto
De coração tão vivo e lancinante
Tive ao pensar numa separação!
Não sei que tenho, tão ansiosa e sem motivo.
Queria ver-te... estar ao pé de ti...
Cruel volúpia e profunda ternura dilaceram-me!

É como uma corrida, em minhas veias,
De fúrias e de santas para a ponta dos meus dedos
Que queriam tomar tua cabeça amada,
Afagar tua fronte e teus cabelos,
Prender-te a mim por que jamais tu me escapasses!

Oh, quisera não ser tão voluptuosa!
E todavia
Quanta delícia ao nosso amor traz a volúpia!
Mas faz sofrer... inquieta...
Ah, com que poderei contentá-la jamais?
Quisera calmá-la na música...
Ouvir muito, ouvir muito...
Sinto-me terna... e sou cruel e melancólica!

Possui-me como sou na ampla noite pressaga!
Sente o inefável!
Guarda apenas a ventura
Do meu desejo ardendo a sós
Na treva imensa...
Ah, se eu ouvisse a tua voz!"

Manuel Bandeira
 BANDEIRA, M., Estrela da Vida Inteira, Poesias Reunidas. Rio de Janeiro: José Olympio, 1973.

quarta-feira, 5 de abril de 2017

Sobre amor, sim!

Rainer Maria Rilke, disse à um jovem poeta que evitasse escrever sobre amor, algo demasiadamente comum, sobre o qual muitos já falam.
Mas, contrariando esse conselho, cá estou eu, uma aspirante a aspirante de escritora, para escrever sobre amor.
O amor é lindo!
Sim, o amor é e sempre será lindo, por que o amor é puro, é perfeito. O amor não machuca. Saudade machuca, falta de amor machuca, rejeição machuca... Amor? Amor cura! Amor muda! Amor transforma!
O amor transforma dias cinzentos em lindos dias cinzentos, ou simplesmente em dias magnificamente coloridos.
Amar e ser amado é uma das melhores coisas do mundo. Nunca tive essa experiência, mas, tenho certeza que é. Basta ver o jeito bobo como os apaixonados agem, eles são leves, são felizes, eles falam o tempo inteiro um do outro, eles são tão fofos que dá vontade de colocá-los num potinho e protegê-los de todo mal, para que nada abalem seus sonhos e que a vida não destrua tal amor. O amor melhora as pessoas, e se não melhorar, não é amor. Parece que ninguém se torna uma pessoa ruim quando ama e é amada.
O amor cria uma deliciosa relação de respeito, carinho, dedicação entre duas pessoas. Elas se ajudam, se entendem (só com um olhar às vezes). Um casal que se ama torna-se um só, mas, mesmo que possuam um coração, o amor preserva a particularidade de cada um, ao mesmo.
Pensando bem, Rilke tinha razão, é tão difícil falar de amor, mas, é tão impossível não falar.
Termino esse pequeno texto com um trecho de uma música do Lenine que agora me veio à mente:
" Amor é pra quem ama
Amor matéria-prima
A chama
O sumo
A soma
O tema..."