sábado, 1 de julho de 2017

EU NÃO ME ESQUECI DE QUEM A GENTE FOI - Emanuel Hallef


"Eu queria aprender a desapegar assim das pessoas, como você desapegou de mim. Não é fácil pra eu falar sobre isso, pois ainda tenho amarras bem pesadas no peito. Mas nas primeiras semanas, eu devo admitir que fiquei sem saber o que fazer. Eu saía cansada da universidade, a cabeça cheia, e no ônibus eu ia planejando durante o caminho inteiro, por já saber o que acontece toda noite: "quando eu chegar em casa, vou logo dormir, pra evitar pensar", mas isso nunca acontecia, é claro, e eu sabia que não aconteceria nem tão cedo.
Algumas paixões são difíceis de matar.
E eu me perdia na noite, encurralada pela madrugada,
e em pensamento eu te trazia de volta
para ficar mais um pouco comigo.
Eu imaginava mil e uma coisa.
Como se você fosse voltar, era engraçado e banal.
E estranho, porque inconscientemente, eu te esperava mesmo. Eu segurava o telefone na mão, apertando-o, paranoica. Mudava o lado da cama, ligava a televisão, ficava de pé. Eu esperava que a porta batesse. Eu esperava que você aparecesse de surpresa na janela do quarto, tipo o que os amores dos filmes românticos fazem por outros amores.
Eu só esperava te ver... E bem, eu te via, sim, de certo modo, mas só em pensamento. Lá, você voltava e dizia que nunca tinha sido a sua intenção me magoar, que as coisas não precisavam ser assim e que você queria voltar para sermos o que éramos, ou uma coisa maior que aquilo.
Eu sorria, boba e apaixonada, e repousava
minha mão em você,
em silêncio, porque eu sempre
gostei de estar em silêncio
enquanto ouvia seu peito subir e descer, e lá,
quieta, eu pensava "meu namorado está de volta.
E ele parece estar mais interessante do que nunca".
no sonho, a gente conversava sem parar, porque parecia não haver tempo para nós. Você veio para ficar, e ficaria, porque não havia outro lugar em que você quisesse estar.
E aí, lembrávamos das pessoas que nos desmotivavam,
lá atrás, dizendo que nossa relação
nunca iria para frente
pelo fato de sermos incompatíveis.
E eu dizia a você, naquela noite, ainda em sonho, que eu me compatibilizaria a você, todos os dias, se preciso fosse, porque eu te amava, e amar pede esse tipo de sacrifício.
Sem falar que eu não me via exibindo
amor por mais ninguém.
Você também dizia que se compatibilizaria em mim,
em toda a sua abundância
(sim, você me disse que viria inteiro, agora).
[eu morria de amor, e continuava vivendo...]
Mas ainda nas madrugadas, eu acordava. E chorava, muito, puxava o lençol, atirava ele longe, e eu adormecia pela dor de cabeça, e acordava no outro dia, sabendo que esse ciclo vicioso se repetiria. Acordar-ônibus-pensar-chorar-"e se..."-faculdade-noite-madrugada-eledevolta-acordar.
Eu agia assim, não era porque eu era fraca e não conseguia te arrancar de mim, é só que existem certos tipos de amor, que não acabam, mesmo quando chegam ao fim.
[e o meu continua aqui, doendo...]"